INTERDEPENDÊNCIA OU MORTE

RESENHA: INTERDEPENDÊNCIA OU MORTE!

Osvaldo Christen Filho

ORNISH, D., M.D. Amor & Sobrevivência: A base científica para o poder curativo da intimidade. Tradução de Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Dean Ornish é um médico e cientista catedrático em Pesquisas de Medicina Preventiva na Califórnia; professor de medicina clínica na Universidade da Califórnia, San Francisco e fundador do Centro de Medicina Integrada nesta universidade. Foi considerado pela revista Life como uma das cinqüenta personalidades mais influentes de sua geração. Autor de diversos livros.

O autor contextualiza suas idéias na prática clínica e pesquisas que liderou realçando não serem somente os aspectos físicos e mecânicos de que a medicina atual lança mão para o processo curativo, como dietas, exercícios, deixar de fumar, medicamentos, cirurgia, genes, germes, micróbios e moléculas, mas também o poder curativo do amor e da intimidade. Estes fatores, segundo ele, realizam transformações emocionais e espirituais influenciando na díade saúde-doença. A ciência, porém, com todo o respeito que a ela e ao seu rigor devemos, não consegue quantificar ou medir instrumentalmente experiências curativas poderosas como essas. Enquanto médico cardiologista, Ornish realça a importância de, enquanto profissional, ver o paciente além do conceito puramente fisiológico e mecânico: o homem também possui um coração emocional, psicológico e espiritual. Se estes aspectos de coração se abrem, o órgão biológico geralmente os acompanha. Mesmo que a cura não seja possível, o restabelecimento pode acontecer. Segundo ele, restabelecer e curar não são a mesma coisa, assim como não o são o sofrimento e a dor. Enquanto a dor é um processo físico que envolve informações químicas de alguma alteração percebida pelo corpo, o sofrimento é a percepção e elaboração dessa dor. Para fundamentar essas idéias, o autor cita o médico e psiquiatra Victor Frankl e suas experiências num campo de concentração nazista na Segunda Guerra Mundial. Frankl traz a noção de significado para a vida, pois foi este elemento que auxiliava muitos condenados a morte ao seu redor sobreviverem. Com este exemplo e outros de sua lista de pacientes, o autor realça o restabelecimento ou recuperação, mesmo não sendo mensurável ou descritível. A dor, trazida a nível consciente, faz a pessoa também tratar de outras questões como a solidão, o isolamento, perdas, hostilidades, raiva e sentimentos ou fatos correlatos. Nesse momento, as pessoas ficam muito mais dispostas a fazer mudanças para melhor em seu estilo de vida do que aquelas que são autodestrutivas. Compartilhar o sofrimento com alguém é altamente terapêutico. O

homem necessita experimentar união, comunidade, senão fica à mercê do isolamento que lhe rouba a vida. Infelizmente, às vezes, esse sentimento de acolhida e pertença é somente encontrado em comunidades que não possuem objetivos de cura, mas de destruição, como por exemplo, gangues, seitas ou religiões fundamentalistas que congregam indivíduos para objetivos escusos. Ornish lembra que, felizmente, é possível criar comunidades e relacionamentos baseados no amor e na intimidade e não no medo e no ódio, pois pessoas ao nosso redor trazem noção de familiaridade, segurança e conforto, um lugar onde conhecemos e somos conhecidos. Podemos aprender com o sofrimento dos outros. A percepção consciente é o primeiro passo para a cura, diz ele. O autor também vê que a medicina pode ser praticada com essa dimensão maior, dotada de maior calor humano, mais compaixão. Ela seria então mais eficaz e reduziria custos de tratamento de saúde. As causas para tratamento seriam buscadas, não somente os sintomas. Apresenta diversos estudos desde a década de 1940 para embasar seu pensamento. Esses estudos evidenciam a interferência dos relacionamentos amorosos no fortalecimento do sistema imunológico (Estudo do estresse em Harward); no desenvolvimento de câncer (Estudo da Escola de Medicina Johns Hopkins; Estudo do Dr. David Kissen na Escócia); na consecução de suicídios (Estudo de Emile Durkheim); como fator de proteção ao infarto do miocárdio (Estudo de Roseto, Pensilvânia); entre outros. A própria experiência do autor que aos 19 anos passou por uma depressão, serviu para que iniciasse uma transformação em sua vida, uma transformação espiritual, como relata, com base na meditação e paz interior. Até aos 40 anos de idade experimentou realizações e atividades externas como trabalhar, pesquisar e escrever livros, mas sentia-se insatisfeito. Daí passar “da paixão para a compaixão”, como denomina, ou seja, a importância de se fazer algo intencionalmente, especialmente em favor dos outros. Sair do narcisismo, pensar em termos como todo, conexão, interligação, ou interdependência. Novamente amor e intimidade ganham realce quando explica que só posso ser útil ao todo tendo uma base firme construída nestes dois mencionados atributos. Isso inclui escolher conscientemente o compromisso, a disciplina e a monogamia como ingredientes de um ambiente seguro. É preciso sentir-se seguro na intimidade – então podemos “abrir nosso coração” quando estamos vulneráveis. Outra faceta para sentir-se bem no todo é a noção de individualidade, de um eu separado, de diferenciação. Nessa condição assume-se responsabilidade, examinam-se seus próprios problemas, enfrenta-se a solidão. Só assim é possível compreender-se uma extensão dos outros. Paradoxalmente é preciso aprender a ficar sozinho – também no grupo. Interdependência seria a palavra correta para sair dos extremos de independência e dependência nos relacionamentos com pessoas. O amor e Deus coroam os relacionamentos: ver e amar a Deus nas pessoas e em mim mesmo faz experimentar o sagrado nas coisas comuns, sem buscar o extraordinário. Dessa maneira é possível a remoção das barreiras que separam os homens uns dos outros:

sou amado porque posso amar. Isso acrescenta sobrevida. Isso acontece freqüentemente em Grupos de Apoio. Ali se oferece um lugar seguro para as pessoas que resolveram conscientemente baixar as barreiras e defesas emocionais e expressar suas próprias emoções e histórias. Esse abrir do coração tem poder curativo, pois desaliena, incorpora, socializa o solitário. É um ambiente propício para ouvir, encorajar, sentir-se amado, aprender a lidar com problemas, expressar sentimentos. O sofrimento torna-se mais tolerável. É um lugar onde todos me conhecem com todos os meus defeitos e ainda assim permanecem ali. A compreensão que vê, sente e compreende interligações – atributos essencialmente humanos – chama-se compaixão, é uma experiência espiritual. Mudamos de lado porque, se antes desejávamos ser ouvidos, agora conseguimos ouvir adequadamente. Abrir-se com o grupo de apoio relaciona-se também, de certo modo, ao processo de confissão, perdão e redenção, que faz parte da maioria das tradições religiosas e espirituais. O inaceitável pode ser trazido à luz sem ódio ou violência. É um processo em que as pessoas se encontram em diferentes estágios; não é mágico; não isenta da responsabilidade de atos; não concorda com o ato objeto de perdão; auxilia no perdoar-se a si mesmo. No último capítulo, Ornish mais uma vez lembra não ser possível investigar por completo via ciência o processo curativo do amor e intimidade, e conclui registrando uma série de diálogos com profissionais e personalidades ligadas ao tema “ciência e mistério”. Certo é, segundo ele, que o amor e a intimidade desempenham papel poderoso na saúde, bem estar e sobrevivência do ser humano. Solidão e isolamento predispõem ao sofrimento, à doença e à morte prematura; inversamente, o amor e a intimidade levam à maior alegria de viver e à cura.

O autor traz uma discussão que vem ganhando espaço nos últimos anos no campo das ciências: a visão holística no tratamento da saúde do ser humano. Sua contribuição vem somar aos vários estudos desenvolvidos que apontam à importância de se observar a unicidade em contraposição à dicotomia trazida pelo Iluminismo.

A leitura do livro objeto desta resenha é acessível a terapeutas de família e profissionais ligados à saúde e serviço social uma vez que o processo terapêutico do amor e da intimidade se dá, especialmente, nas relações humanas de atuação destes.

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